Mês que vem são 21 anos, 21 anos que meu difícil e errante destino começou.
Se eu queria aprender a lidar com a dor, se essa era minha escolha enquanto ainda nas nuvens estava, eu não podia escolher lugar melhor pra nascer!
Quando bem pequena não posso reclamar de desamor, porque tampouco houve e minha ingenuidade não podia ver ainda as falhas do caráter de muitos que me cercavam, umas fortes, umas fracas, um desejo de ser melhor que o outro, mas não devíamos ser todos iguais? Não devia haver uma equidade entre nossas diferenças?
Quando comecei a pensar por mi a primeira coisa que pude perceber era uma guerra declarada, sem fundamentos, talvez até com alguma coisinha ou outra mas não para aquilo tudo. Ir pro Japão foi a pior coisa que meu pai podia fazer e eu não aceito respostas como "Não tinha escolha". Sempre há uma escolha. E as escolhas que ele tomou me tirou a oportunidade de saber como é ter um pai presente, minhas recordações mais antigas são dele e minha mãe brigando por conversa com vídeo e voz. Ou pior, as lembranças de quando ele vinha para o Brasil, gastar o dinheiro sem usar o cérebro de verdade, começar empreendimentos que estavam fadados a dar errado. E por que começava você pode se perguntar. Eu lhe respondo. Ciumes. Foi uma das primeiras bandeiras vermelhas que anunciavam a guerra que ele levantou, tentou fazer minha cabeça sobre pessoas que sempre me ajudaram, sempre vi tentar ajudar minha mãe enquanto ele mesmo estava do outro lado do mundo. Pra que me serve um pai do outro lado do mundo? Pra que me serve um homem que só via querer criar a discórdia? Que só via meter os pés pelas mãos? Que exemplo era aquele?
Minha infância passou, minha inocência foi-se também, eu nunca fui muito esperta, eu era bem tolinha na verdade. As crianças sempre me fizeram de boba com facilidade, por eu na essência ser boa, não conseguia imaginar os outros não sendo. Não entrava na minha cabeça. Eu era boa sim. Eu enterrava até os besouros que matava sem querer por morar no meio do mato. Enterrava dentro de caixinhas de fósforo ou embrulhados em embalagens de bala. E fui uma criança moleca por muito tempo. Digna de histórias como Peter Pan, não queria crescer, não quis aprender a ler também. Entrava em casa pela janela do meu quarto, subia em árvores, nadava, andava de bicicleta. Eu era verdadeiramente livre desde sempre, um ser que mesclava seus momentos corcel indomado com seus momentos contos de fadas.
A pior época que me lembro foi quando meu pai voltou pra ficar, ele havia se tornado uma pessoa dura, fria, egoísta. Eu podia sentir a pessoa má que se debatia dentro dele querendo sair. E saiu muitas vezes na minha presença, jamais conseguirei perdoa-lo por muitas coisas. O dia que ameaçou me acertar com um rodo, eu disse que chamaria a polícia se o fizesse e ele me expulsou pela primeira vez, sumi o dia inteiro com os celulares desligados. A vez que atirou um capacete nas minhas pernas. O dia que eu cai da escada e ele me disse um "Bem feito, Deus castiga". Entre tantas outras situações.
E minha mãe, francamente eu detestava minha mãe perto desse homem. Ele ameaçou bater nela algumas vezes, eu me coloquei no meio algumas delas. Minha mãe começou a querer se igualar a ele ou foi isso o que me pareceu, ela não gostava de absolutamente ninguém. Fazia questão de ser antipática e com o tempo fui desaprendendo a levar as pessoas em casa porque já achava bem ruim morar lá, porque dividiria meu infortúnio?
Alguns me julgam insensível, dizem que eu nunca amei de verdade (por acaso são pessoas da minha própria família que o fazem). Eu já amei demais, muito mesmo, já me sacrifiquei bastante em nome do tal amor e com isso aprendi muito mas também me tornei mais incrédula com o ser humano no geral. Por que mesmo quando a pessoa diz amar ela tem coragem de machucar e oprimir? Isso não deveria ser possível.
Hoje sou medrosa, um hábito que peguei com o passar dos anos foi o de me encolher, eu desaprendi a conversar, se me falam de algo que faço que incomoda, já começo a me sentir uma pessoa má e me encolher, e me aquietar, e demorar a responder enquanto faço longas pausas silenciosas. Hoje em dia se brigo com meu namorado eu me encosto no encontro de duas paredes e lá fico como um feto (e sei que isso o irrita), e choro, e soluço. Eu fazia isso com meus pais também, só que nesse caso eu me trancava no banheiro, muitas vezes acompanhada com objetos cortantes.
Me cortava só pra observar o sangue escorrer, para que aquilo calasse minhas lágrimas que insistiam em cair e sempre funcionou. Mas a coisa piorou a tal ponto que eu comecei a escrever com sangue no meu caderno como se fosse um diário. Eu era realmente muito infeliz.
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